Acho que isto está acontecendo comigo. Estou sendo sugada por ele. E não estou resistindo mais. Tanto faz dar ou não o último passo. Cair ou não. Encará-lo já não é o suficiente. Quero mergulhar em seu âmago e desaparecer. Quem sabe o fundo não seja tão profundo e a dor nem seja tanta. Aqui encima é muito mais agoniante e vazio. Muito mais escuro e solitário. Só que ninguém mais vê.
Hoje escrevi uma carta póstuma, e parecia que me correspondia diretamente com Brás Cubas. Sorri. Quisera eu ver como seria após minha partida. Mas melhor que isso não acontecesse.
Receio que seria mais um dia como outro qualquer. As luzes da cidade tremeluzindo solteiras, os carros conduzindo amores e esperanças. Rostos debruçados nas janelas, crianças brincando na calçada. Casais dando juras de amor, o céu tão reluzente como nunca. Um dia comum, a não ser pela ausência de um. Ponto esse, rasurado e massacrado diante da grande multidão sem rosto. Acredito que derramariam duas ou três lágrimas, talvez por etiqueta, ou então contratariam uma carpideira. Bem mais cômodo. Jogariam meia dúzias de rosas já desbotadas. E voltariam para casa. Certos de que amanhã tudo seria diferente.
E talvez fosse. Menos um peso para as costas do grande universo. E o abismo? Com certeza, continuaria olhando para mim, só que agora por um outro ângulo.

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