quinta-feira, 4 de novembro de 2010




Chovia pétalas naquela noite. Eram gotas tão suaves que massageavam minha pele descoberta com luvas de pelica. Suspirei. Era um alívio sentir ainda que por instantes todo peso que carregara em meus ombros, ser levado por aquela torrente aveludada. Sorri encantadoramente olhando os feixes que tremeluziam no céu, era linda a disposição contrastante daquela cena. Um filme. Era isso que parecia ser. Daqueles clássicos inveterados, que levavam às lágrimas até mesmo os mais rudes corações. Olhei remotamante para os lados, e a solidão era acalentadora. Ouvi sussurros temi que fosse perigo. Era apenas o vento a despentear meus cabelos. Aquele mocinho levado. Que me fazia cócegas e dispunha-se a correr. Decidi de repente, aventurar-me com passos leves que estalavam nas poças recém-formadas de meu quintal. Na minha mente, eram oceanos, cujas ondas indecisas iam e vinham em uma destreza quase poética. Ah, se pudesse mergulhar de cabeça nesse mar, e percorrer atânticos e pacíficos atrás daquele único olhar. Que me fizesse colorir as entranhas e dissipar os torpes silêncios da vida. O amor. Esse libertino. Enche-me, embebeda-me e depois se vai. Mas ele sempre volta. Com outra luz, outra chama, outro calor. Aquela ínfima faísca que desprende todos os seus mais íntimos segredos. Leviano. Nos faz cometer loucuras e digerir mentiras como pão de ló. Mas lindo. Anestesiante. Sublime. Tenaz. Nunca vi palavra mais breve para definir um sentimento que traduz o mundo.

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