sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Déja vu


Partes que não se encaixam. Peças soltas que não cabem em si. Torpes desejos que nem sei se são meus. Olho-me com descrença. O espelho mente. Não me sinto aqui. Essa vida não é minha. Roubaram-me em alguma curva, em qual parada, furtaram-me a alma? E memórias, fins e recomeços. Por horas recordo de coisas e não sei se realmente existiram. Talvez seja a esperança inocente de que seja apenas uma epifania. Um enxame de alucinações do que poderia ser, mas que na verdade, não estou lá. Sou apenas uma viandante passiva no alucinógeno conto onírico. Talvez Orfeu não venha a meu encontro. E mesmo se viesse, tal destino já estaria selado. Eu sucumbiria e doutra vez retornaria ao meu idílico presente. Presente? Seria este tal dádiva que seu nome induz? Ou talvez uma irônica forma de nos satirizar a cara. Kafka definiu bem minha vida, em sua fabulosa obra " Metamorfose ". Às vezes desperto e sinto-me presa em um corpo que não me pertence, rodeada de pessoas que não conheço, observada por rostos sem nome, e vozes sem sentimento. Amnésia? Talvez tenha batido forte a fronte em uma quina de mesa, tropeçado em um pedra no caminho, traumatismo craniano não sei. Esqueci-me decerto. Ou talvez, não seja nada mais do que um " Dejá vu ". Um quebra-cabeças insano que meu cérebro insiste em manipular. Mas se realmente assim o fosse. Não. Oh não. Logo seria levada para o universo real, abriria os olhos e teria a sensação de que aquilo acontecera comigo antes. E sendo assim, toda ilusão acalentadora de experimentar outra vida, ficaria para trás. E a certeza diluiria as delirantes expectativas com um sopro. E esse não seria o sopro do começo paradisíaco, mas talvez o pouso de meu último suspiro.

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