domingo, 28 de agosto de 2011

Despida.


Sou uma peça em eterno desencaixe. Uma ponta solta, uma arresta. Aquele cadarço que se desamarra e qualquer hora lhe derruba. Uma folha que cai no outono e ninguém vê. Pois há tantas outras sendo levadas ao vento. Desventuras ou não, meus olhos tendem ao lirismo exacerbado, reluto com essa fonte que insiste em desaguar. Fico horas observando o estático, ouvindo a mesma música, pensando no mesmo desfecho. Uma pontada desponta suave como uma alfinetada e aos poucos arrebata como o golpe de um machado. É a dor da perda vindoura, do que nunca lhe pertenceu mas que agora faz tanta falta. Dos versos não ditos, dos amores sentidos, do não ser e pecar. Uma saudosa veste que não consigo despir. Atiro-me em meio a sorrisos translúcidos, filmes pitorescos, árduas anotações. O tempo não passa mas ao mesmo tempo me sinto tão obsoleta. Presa entre as ferragens de um presente que ainda não chegou mas já me atormenta.
Não me sinto normal. Sou um borrão entre os rabiscos mal-feitos da humanidade. Retorcidos traços de uma perdida laceração. Um mapa sem começo, linhas que desconheço entre os rumores do verão.
O inverno acalenta o que muitos não vêem, hiberno em meus pensamentos suicidas que de tão meus quase me dilaceram. Por vezes fico absorta a admirar meus pulsos. Imagino se a dor que sentiria seria tão menos constante e agoniante que a que sinto agora. Mas tenho medo de não ir e voltar pior do que estou. Sabe aquela tarefa inacabada. Ou então ir parar em algum universo paralelo em que a dor é bem mais sufocante e ininterrupta. Entre esses dois mundos, ecoa toda minha liberdade. Um grito abafado de todos os meus sentidos, minhas veias, meus poros, meu ser. Porque ninguém consegue ver que sou uma farsa? Que por trás de tanta frieza há um coração que chora. Desisti de esperar de outrem todo bem que desejo dar, de acordar com esperança e ser esmagada por algumas palavras rudes. De chorar sozinha esperando que seja a última vez. Enquanto repito para mim mesma que não sou assim.
A janela continua aberta, as cortinas flutuam sobre a noite encoberta, meus olhos encaram a lua. Dirijo-me a quem lá tenha morada. Faço um pedido apenas. E volto a dormir.


Mas quando acordo ainda sou a mesma.

domingo, 7 de agosto de 2011

Só-lidão.

Dizem as vociferantes línguas que:

Antes só do que mal acompanhado.

Há que se retirar grande veracidade dessas restritas palavras. Digerir a companhia ainda que por gentileza de seres alucinados, incovenientes, soberbos, fúteis ou arrogantes, sinceramente nunca foram minha grande predileção. Outrossim, sempre contive-me aos fios invisíveis com que a poesia me envolvera. Raro eram as vezes em que me cercava de amigos ou pessoas desconhecidas para esbofetear assuntos irracionais e metáforas translúcidas. Não que eu não admirasse tal habilidade sociável e condolente, mas apenas sorria ao ver desnudas todas as minhas hipocrisias.
A solidão encanta-me com devoção quase infame. O rosto indecifrável que ela carrega tanto se confunde com o meu. Os traços intangíveis do silêncio em um convidativo romance francês.
Sim. Ela me seduz. Desprende minhas amarguras e faz passar quaisquer temores. Conforta-me bem mais que um abraço, excita-me muito mais que a própria luxúria.
Não que eu seja narcisista ou coisa qualquer. O espelho não reflete o que sou nem o que imagino ser. Apenas incinde de modo converso com tudo que apresento em segredo. Relutante sensação de estar consigo e perder-se entre seus próprios começos. Essa ternura infinda que ecoa por entre a escuridão, o grande buraco da vida ansiosa, serve-me de sepulcro solene. Onde mergulho rompendo ondas de ar , deslizando em lembranças quase palpáveis, imaginando delícias que a rigor não são minhas. Doei-as todas. Em cada olhar, sorriso, uma torpe usura.

Diga-me com quem andas, que lhe direi quem és.

Sim, sou a solidão estonteante. Digna e suave. Que escorre por entre os sombrios disfarces quem nem eu mesma consigo usar.