Despretensiosamente meu olhar desvia-se do seu. Entre minha esquiva há imensuráveis formas de dizer. O modo como deslizo os dedos entre os fios inconvenientes que passeiam em minha fronte. O sorriso interrompido que insisto em apontar faceiro durante nossa conversa. As polidas palavras que com sutileza pouso em seus ouvidos. Emoção: não haveria apenas de ser esta que nos arrebata em loucuras, disparates amorosos e feitos imprecisos. Aquela que vocifera, brada, afronta. O sentimento é algo singelo. Puro.
Não preciso tocar para sentir os fios de meu corpo em uma saudação veemente. Não preciso pronunciar para que se perceba os intuitos de um coração que ama. O desejo, a linha tênue do desconhecido, essa perspicaz cilada que a vida nos impõe. O curioso estado de torpor e celibato não opcional. Essa clausura íntima e discreta que nossa mente oscilante dispõe. A extrema necessidade e a eterna recusa.
Inclino-me ao pensamento de que não se pode lutar com o que não se conhece. O amor: território inóspito e silencioso. Onde talvez muitos corpos tenham sido perdidos. Espadas e escudos não protegem. Tricheiras não nos escondem. Bandeiras brancas não trazem a paz. Não há vencido nem vencedor. Apenas uma idílica disputa contra si mesmo. O que podemos oferecer quando não nos resta mais nada? E o vazio que se hospeda infringe seus segredos, furta seus sonhos, viola sua alma. Desprezo o amor unilateral, corrosivo e egoísta. Aquele que se aloja como um parasita e cospe-lhe as entranhas. Atinge-o com veracidade e apodera-se de seu espírito como se outrora já não houvesse existido. E depois dele? Ainda que tudo que lhe seja oferecido aparente púrpuras e violetas. Dentro de você , o jardim fomenta uma dilacerante lembrança.
O indescritível receio de que novamente se parta. E não haja recomeço. Pois todos os pedaços deixados levaram uma parte de você. E já não há muito o que oferecer. Então, eu lhe peço, coração: Deixe-me aqui com minha timidez.
Saudade. Como pode-se perceber tal sentimento sem que haja a lembrança fugaz de tenro momento que anteriormente a fundara? Mas quando penso em você essa é a primeira palavra que perscruta minha mente. Falta, ausência. Um aperto por não tocá-lo ainda que minhas mãos tenham inúmeras vezes desejado. Uma perda por imaginar seu gosto e apenas contentar-me com a esperança. Aquela ânsia quando os lábios estão prestes a tocar-se mas apenas o suspiro dos amantes inebria o momento. Quando os olhos ainda não se fecharam totalmente e os cilíos dividem-se na vontade de ver o outro e no íntimo desejo de unir-se aos demais sentidos. Você me trata como gostaria de ser tratada. Acaricia-me com suas palavras e enlaça meus pensamentos aos seus como forma de talvez minimizar toda nossa espera. Seu ciúmes sei que são zelo e afeto a mim, confio em ti como meu amigo e quiça futuro amor. Sei que meu coração por vezes confunde o seu. Mas se há que existir algo realmente lindo entre nós. Assim será.
Quero seus dedos entrelaçando-se aos meus. Seu olhar curioso ao me observar distraída. Seu carinho quando estiver desprotegida ou triste. Preciso de você aqui. Embora nem tudo que eu sinta precise ser necessariamente dito. Não agora. Te adoro, coração!

Díspares desencontros. Uma porta que se fecha, olhares que descruzam, um minuto de atraso, a bolsa esquecida. Há quem não acredite em destino. Mas como exlplicar essa simbiótica congruência entre o universo. Existem um sem-número de casos de pessoas que por um incidente, imprevisto ou esquecimento, tiveram suas vidas salvas de uma grande trágedia ou perda. World Trade Center, acidentes de carro, explosões. Essa ilógica espacial contrai todos os músculos de meu corpo. Na verdade sinto um leve arrepio até a espinha. Coisa intrigante. Mas há que se contar com a sorte. Pois os ínumeros outros que faleceram sem um mero aviso. Ou talvez também tivessem sido avisados e estavam distraídos? Pensando em alguém, estressados, ansiosos.Não sei bem. Mas imagine saber que em um segundo de mero lampejo você foi escolhido. Sua vida há que valer algo afinal. Ou senão qual seria o maior propósito. Deixá-lo vivo para que definhe em traumas e sucumba. Não, jamais. Admiro o olhar dos sobreviventes, dos guerreiros, dos humildes, daqueles que sofreram e sofrem mas que não abortam suas expectativas. Não sei porquê mas meus maiores " ídolos " já estão mortos. E surge uma nostalgia imensa de não poder sonhar em uma dia esbarrar com um deles e perguntar o que lhes passa na mente. Caio Fernando de Abreu, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Vinicius de Moraes. Até pouco tempo chorei assistindo um vídeo de Clarice, seu primeiro e último aliás, e a forma como ela falava e gesticulava me fascinavam. Era de uma simplicidade ímpar. Sua evasividade, fuga e tristeza aparente eram tão íntimas e sinceras que me alcançaram intensamente.
Era como se eu estivesse lá. Olhando de perto e apenas deixando-me levar por seus lirismos. Fiquei atônita e ao mesmo tempo deprimida. A vida ás vezes me apavora muito mais que a morte. Irônico talvez.
É como se estivesse presa em mim. Olho para dentro como se fora uma fechadura. E nada vejo, há uma penumbra avassaladora e ela sussura meu nome. Ela diz balbuciando com todo receio de uma recusa. Estou fora de mim e ao mesmo tempo sinto como se não houvesse outro modo de estar tão perto. É patético mas ao mesmo tempo sublime essa falta de si e ao mesmo tempo uma transbordante sensação de aconchego. Sinto-me em casa. E estou. Mas permaneço sentada na varanda.

Uma gota de sobriedade sobre um copo transbordante. Tudo de que preciso esta noite. Nada para pesar ou aniquilar minhas dores mas apenas uma forma de anestesia. Sabe aquele sorriso sem sentido, gargalhadas esporádicas por um olhar interrompido ou um tropeço mal dado. Qualquer coisa que minimize suas lástimas e incessantes dores. E lhe faça ao menos por algum segundo, sentir-se potente. Incoerente mas ao mesmo tempo tão seguro de sua agoniante sobriedade. Os olhares tão incandescentes do desprezo alheio não lhe ferem, são reflexos de suas próprias fraquezas. Uma fuga que talvez não desejem carregar consigo, mas que repudiam tão somente pela trágica semelhança que a imagem lhes aparenta. O asco que muitas vezes arremessamos nos rostos alheios não condizem com as hipócritas sensações que discretamente afugentamos. Os medos e abismos sensoriais que nos imergem são tão rasos. Ignorância pensar nas suas profundezas, pois quão mais sepulcral e inquietante há em cada um de nós. Isso é profundo. O que nos pertence, nos atinge. Aquela partícula inerente, talvez debruçada em nossas conversas fiadas, ironias afiadas e desejos comedidos. O que ninguém vê. E que apenas você sente. Isso é real. E não há quem no mundo que possa dizer o contrário. Sobriedade, é tudo de que não preciso esta noite. Encha meu copo. E não me leve pra casa. Por favor.