Díspares desencontros. Uma porta que se fecha, olhares que descruzam, um minuto de atraso, a bolsa esquecida. Há quem não acredite em destino. Mas como exlplicar essa simbiótica congruência entre o universo. Existem um sem-número de casos de pessoas que por um incidente, imprevisto ou esquecimento, tiveram suas vidas salvas de uma grande trágedia ou perda. World Trade Center, acidentes de carro, explosões. Essa ilógica espacial contrai todos os músculos de meu corpo. Na verdade sinto um leve arrepio até a espinha. Coisa intrigante. Mas há que se contar com a sorte. Pois os ínumeros outros que faleceram sem um mero aviso. Ou talvez também tivessem sido avisados e estavam distraídos? Pensando em alguém, estressados, ansiosos.Não sei bem. Mas imagine saber que em um segundo de mero lampejo você foi escolhido. Sua vida há que valer algo afinal. Ou senão qual seria o maior propósito. Deixá-lo vivo para que definhe em traumas e sucumba. Não, jamais. Admiro o olhar dos sobreviventes, dos guerreiros, dos humildes, daqueles que sofreram e sofrem mas que não abortam suas expectativas. Não sei porquê mas meus maiores " ídolos " já estão mortos. E surge uma nostalgia imensa de não poder sonhar em uma dia esbarrar com um deles e perguntar o que lhes passa na mente. Caio Fernando de Abreu, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Vinicius de Moraes. Até pouco tempo chorei assistindo um vídeo de Clarice, seu primeiro e último aliás, e a forma como ela falava e gesticulava me fascinavam. Era de uma simplicidade ímpar. Sua evasividade, fuga e tristeza aparente eram tão íntimas e sinceras que me alcançaram intensamente.
Era como se eu estivesse lá. Olhando de perto e apenas deixando-me levar por seus lirismos. Fiquei atônita e ao mesmo tempo deprimida. A vida ás vezes me apavora muito mais que a morte. Irônico talvez.
É como se estivesse presa em mim. Olho para dentro como se fora uma fechadura. E nada vejo, há uma penumbra avassaladora e ela sussura meu nome. Ela diz balbuciando com todo receio de uma recusa. Estou fora de mim e ao mesmo tempo sinto como se não houvesse outro modo de estar tão perto. É patético mas ao mesmo tempo sublime essa falta de si e ao mesmo tempo uma transbordante sensação de aconchego. Sinto-me em casa. E estou. Mas permaneço sentada na varanda.

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