segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Matar um leão por dia


Estava recordando de um filme que havia visto tempos atrás: Sombra e Escuridão. Duas feras em território africano disputando carne humana como aperitivos. E daí veio-me à memória a expressão " Matar um leão por dia ". Sim, a doce quimera cotidiana que abate os mais estridentes guerreiros. Dilacera corações, Esmiuça pensamentos e couraças com um só golpe. Toda fragilidade exposta em um simples rito animal. Só os mais fortes sobrevivem, a própria seleção natural nos sintetiza. Certamente na fuga desesperadora que antecede a queda, amíude quisera podermos supor o que afligiria os pensamentos acelerados. O primeiro beijo, as conversas jogadas fora, os passos de dança que nunca foram dados, as músicas degustadas enquanto passeava seus dedos sobre a taça ainda cheia. Não sei. O nascimento do filho, o olhar da pessoa amada, o pôr do sol em viena, as doces poesias de Souza & Cruz, versos cantados de Drummond, lirismos de Pessoa, trovas de Camões, bossas de Jobim. O enluarado céu visto da sua janela. Naquela noite em especial. Matar um leão por dia? Os braços sustentariam lanças, as pernas suportariam as distâncias, o peito aguentaria a dor? Sim, o instinto de sobrevivência chega a ser poético. Luta-se até o último minuto com a certeza da bandeira estendida. Do brado de vitória. Dos júbilos e congratulações. Herói. Quem não sonha com tal mérito, estandarte em terra, cantos nos lábios, sangue nas mãos. Mas há quem jure que até os que sucumbem possuem algum propósito divino e patriótico. Isso quando se luta por todos. E quando se luta por si mesmo? Quando a peleja travada é contra seu próprio eu veterano? Há que se falar em vitória e derrota, ou sempre saíriamos ganhando? Estou matando uma fera por dia, há dias em que ela quase me pega, há tantos em que a despedaço. Amanhã? Veremos. Nada como um leão após o outro.

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