quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O convite inesperado.


Certa vez, entre os vestígios quase perdidos de minha infância. Tenra menina que desconhecia aproximou-se bem da entrada de minha casa, bateu repetidas vezes em meu portão. Quase em desespero. E eis que em sua face pude ver claramente o convite. Ela, ali parada. Fitando-me com seus olhos esperançosos e talvez sofridos. Disse: Venha comigo, vamos fugir. Decerto, relutei por alguns instantes. Mas não cheguei a descartar tal possibilidade. Pus-me em pensamentos dispersos sem que de meus lábios vislumbrasse som algum. E talvez, como de quem pensa com tanta veemência que esquece de pousar em palavras. Passou. Ela desaparecera entre milhares de outras faces rosadas e inocentes que ali estavam. E com ela, tal memória assim também permanecera adormecida até hoje. Não sei por qual motivo, tal remanescência singela e pueril transcendeu todos meus maiores medos e tristezas diárias. E por segundos, refleti. E se tivesse partido. Se houvesse entrelaçado minhas mãos nas aladas promessas daquela menina. Onde estaria? Talvez em uma varanda qualquer, lendo um romance inebriante, tecendo fios de recordações saudosas e sutis. Ou então, rodopiando sozinha por entre ruas cinzentas de uma cidade européia qualquer, talvez com um cigarro aceso, um maço ou dois de histórias felizes, um sobretudo e um laço vermelho nos cabelos. Não sei. Talvez casada com filhos, vivendo um clichê americano. Conto do felizes para sempre. Ou não. Talvez estivesse tão infeliz quanto estou agora. Mergulhada em sentimentos que desconheço, escondida sobre um passado ferido, debruçada sobre um futuro tão incerto. Sei lá. Quiçá estivesse bem. Mas apenas uma coisa me conforta entre todos esses lampejos desmedidos. Onde a menina estaria? Ainda que houvesse desistido de seu intento minutos depois de seu convite, sua coragem transpareceu tanta liberdade, que ensaio aqui um sorriso em sua homenagem, onde quer que esteja.

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